Mostrando postagens com marcador Poesia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Poesia. Mostrar todas as postagens

terça-feira, dezembro 29, 2015

Quando, Lídia, vier o nosso outono - Ricardo Reis

Fonte
Quando, Lídia, vier o nosso outono
Com o inverno que há nele, reservemos
Um pensamento, não para a futura
Primavera, que é de outrem,
Nem para o estio, de quem somos mortos,
Senão para o que fica do que passa
O amarelo atual que as folhas vivem
E as torna diferentes.

Ricardo Reis - Odes
(heterônimo de Fernando Pessoa)


Para ser grande... - Ricardo Reis

Fonte

Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.

Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazer.

Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.

Ricardo Reis
(heterônimo de Fernando Pessoa)

quinta-feira, junho 25, 2015

Aprendi com as primaveras...

Fonte
Aprendi com as primaveras a me deixar cortar para poder voltar sempre inteira.

Cecília Meireles

domingo, janeiro 20, 2013

Uma música que seja


Uma música que seja

... como os mais belos harmônicos da natureza. Uma música que seja como o som do vento na cordoalha dos navios, aumentando gradativamente de tom até atingir aquele em que se cria uma reta ascendente para o infinito. Uma música que comece sem começo e termine sem fim. Uma música que seja como o som do vento numa enorme harpa plantada no deserto. Uma música que seja como a nota lancinante deixada no ar por um pássaro que morre. Uma música que seja como o som dos altos ramos das grandes árvores vergastadas pelos temporais. Uma música que seja como o ponto de reunião de muitas vozes em busca de uma harmonia nova. Uma música que seja como o vôo de uma gaivota numa aurora de novos sons...

Vinícius de Moraes

sexta-feira, março 23, 2012

Encomenda

Desejo uma fotografia
como esta - o senhor vê? - como esta:
em que para sempre me ria
com um vestido de eterna festa.

Encomenda - Cecília Meireles

segunda-feira, setembro 19, 2011

Motivo

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre, nem sou triste,
sou poeta.

Irmão das coisas fugidas,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico
se permaneço ou me desfaleço
-não sei, não sei. Não sei se fico
-ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno e a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo
-mais nada.

Celília Meireles

sexta-feira, setembro 16, 2011

Onde a alma possa descrever...

Onde a alma possa descrever
suas mais divinas parábolas
sem fugir à forma do ser
por sobre o mistério das fábulas.

Carlos Drummond de Andrade

quarta-feira, setembro 14, 2011

Anda em mim...


Anda em mim, soturnamente,
Uma tristeza ociosa,
Sem objetivo, latente,
Vaga, indecisa, medrosa.

Cruz e Sousa

quarta-feira, agosto 17, 2011

Morre lentamente

Morre lentamente,
quem não viaja, quem não lê, quem não ouve música,
quem não encontra graça em si mesmo.

Morre lentamente,
quem destrói o seu amor-próprio, quem não se deixa ajudar.


Morre lentamente ,
quem se transforma em escravo do hábito,
repetindo todos os dias os mesmos trajetos, quem não muda de marca,
não se arrisca a vestir uma nova cor, ou não conversa com quem não conhece.

Morre lentamente,
quem faz da televisão o seu guru.

Morre lentamente,
quem evita uma paixão,
quem prefere o negro sobre o branco e
os pontos sobre os "is" em detrimento de um redemoinho de emoções, justamente as que resgatam o brilho dos olhos,
sorrisos dos bocejos,
corações aos tropeços e sentimentos.

Morre lentamente,
quem não vira a mesa quando está infeliz com o seu trabalho,
quem não arrisca o certo pelo incerto para ir atrás de um sonho,
quem não se permite pelo menos uma vez na vida fugir dos conselhos sensatos.

Morre lentamente,
quem passa os dias queixando-se da sua má sorte ou da chuva incessante.

Morre lentamente,
quem abandona um projeto antes de iniciá-lo,
não pergunta sobre um assunto que desconhece,
ou não responde quando lhe indagam sobre algo que sabe.


Evitemos a morte em doses suaves,
recordando sempre que estar vivo
exige um esforço muito maior que o simples facto de respirar.


Pablo Neruda

terça-feira, agosto 16, 2011

Poesia

Gastei uma hora pensando um verso
que a pena não quer escrever.
No entanto ele está cá dentro
inquieto, vivo.
Ele está cá dentro
e não quer sair.
Mas a poesia deste momento
inunda minha vida inteira.


Carlos Drummond de Andrade

domingo, agosto 14, 2011

Procura da Poesia

Chega mais perto e contempla as palavras
Cada uma
Tem mil faces secretas sob a face neutra

A Rosa do Povo - Carlos Drummond de Andrade

sábado, agosto 13, 2011

Motivo da Rosa

Não te aflijas com a pétala que voa:
também é ser, deixar de ser assim.

Rosas verás, só de cinza franzida,
mortas intactas pelo seu teu jardim.

Eu deixo aroma até nos meus
[espinhos,
ao longe, o vento vai falando em [mim.

E por perder-me é que me vão lembrando,
por desfolhar-me é que não tenho fim.


Cecília Meireles

sexta-feira, agosto 12, 2011

Armas

-Qual a mais forte das armas
A mais firme, a mais certeira?
a lança, a espada, a clavina,
Ou a funda aventureira?
A pistola? O bacamarte?
A espingarda, ou a flecha?
O canhão que em praça forte
Faz em dez minutos brecha?
-Qual a mais firme das armas?
O terçado, a fisga, o chuço,
O dardo, a maça, o virote?
O punhal, ou o chifarote?...
A mais tremenda das armas,
Pior que a durindana,
Atendei meus bons amigos:
Se apelida: - a língua humana!

Fagundes Varela

quarta-feira, agosto 10, 2011

Ontem - A Rosa do Povo

Até hoje perplexo
ante o que murchou
e não eram pétalas.

De como este banco
não reteve forma,
cor ou lembrança.

Nem esta árvore
balança o galho
que balançava.

Tudo foi breve
e definitivo.
Eis está gravado

não no ar, em mim,
que por minha vez
escrevo, dissipo.


Carlos Drummond de Andrade - Ontem (A Rosa do Povo)

domingo, agosto 07, 2011

Palavras...

Busca palavras límpidas e castas,
Novas e raras de clarões ruidosos,
Dentre as ondas mais pródigas, mais vastas
Dos sentimentos mais maravilhosos.
Cruz e Souza

sábado, junho 25, 2011

Liberdade


Liberdade, essa palavra
que o sonho humano alimenta
que não há ninguém que explique
e ninguém que não entenda.


Romanceiro da Inconfidência - Cecília Meireles

sexta-feira, junho 24, 2011

A Dança e a Alma

"A dança? Não é movimento,
súbito gesto musical.
É concentração, num momento,
da humana graça natural"
Carlos Drummond de Andrade