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quinta-feira, janeiro 22, 2015

O Hobbit - Citação [2]


Apesar disso, a manhã seguinte raiou clara e bela de novo. Havia uma névoa outonal, branca sobre o solo, e o ar estava frio, mas logo o sol surgiu vermelho no leste e a névoa desapareceu, e, enquanto as sombras ainda estavam alongadas, eles partiram de novo.

O Hobbit - J.R.R. Tolkien

O Hobbit - Citação



Por sorte, era muto leve, o barril era de bom tamanho e, como tinha alguns orifícios, já deixara entrar um pouco de água. Mesmo assim, era como tentar montar, sem rédea ou estribo, um pônei barrigudo que estivesse sempre querendo rolar na grama.

O Hobbit - J. R. R. Tolkien

sexta-feira, junho 01, 2012

Sobre Histórias de Fadas - Citação [9]

Mas também existem outros “escapismos” mais profundos que sempre apareceram nos contos de fadas e nas lendas. Existem outras coisas mais repugnantes e terríveis das quais fugir do que o barulho, o fedor, a crueldade e a extravagância do motor de combustão interna. Existem fome, sede, pobreza, dor, pesar, injustiça, morte. E, mesmo quando os homens não estão enfrentando situações desagradáveis como essas, existem antigas limitações das quais as histórias de fadas oferecem uma espécie de escape, e velhas ambições e desejos (que tocam as próprias raízes da fantasia) aos quais oferecem um tipo de satisfação e consolo. Algumas são fraquezas ou curiosidades perdoáveis, como o desejo de visitar, livre como um peixe, o mar profundo, ou o anseio pelo vôo silencioso, gracioso e econômico do pássaro, esse anseio que o avião burla, exceto em raros momentos, quando visto alto e silencioso graças ao vento e à distância, voltando-se ao sol - isto é, precisamente quando é imaginado e não usado.

Sobre Histórias de Fadas - J. R. R. Tolkien

terça-feira, março 20, 2012

Sobre Histórias de Fadas - Citação [8]



São precisamente o colorido, a atmosfera, os inclassificáveis detalhes individuais de uma história e, acima de tudo, o teor geral que dotam de vida os ossos não dissecados do enredo, que realmente fazem a diferença.

Sobre Histórias de Fadas - J. R. R. Tolkien

terça-feira, março 13, 2012

Sobre Histórias de Fadas - Citação [7]

Primeiro de tudo: se forem escritas com arte, o valor primordial das histórias de fadas será simplesmente aquele valor que, por ser literatura, compartilham com outras formas literárias. Mas as histórias de fadas também oferecem, em grau ou modo peculiar, estas coisas: Fantasia, Recuperação, Escape, Consolo - todas elas coisas de que as crianças em regra precisam menos do que os mais velhos. Hoje a maioria delas é muito comumente considerada nociva para todos.
Sobre Histórias de Fadas - J. R. R. Tolkien

terça-feira, março 06, 2012

Sobre Histórias de Fadas - Citação [6]


O consolo das histórias de fadas, a alegria do final feliz, ou mais corretamente da boa catástrofe, da repentina “virada” jubilosa (porque não há um final verdadeiro em qualquer conto de fadas), essa alegria, que é uma das coisas que as histórias de fadas conseguem produzir supremamente bem, não é essencialmente “escapista” nem “fugitiva”. Em seu ambiente de conto de fadas - ou de outro mundo - ela é uma graça repentina e milagrosa: nunca se pode confiar que ocorra outra vez. Ela não nega a existência da discatástrofe, do pesar e do fracasso: a possibilidade destes é necessária à alegria da libertação. Ela nega (em face de muitas evidências, por assim dizer) a derrota final universal, [...]

Sobre Histórias de Fadas - J. R. R. Tolkien

domingo, fevereiro 26, 2012

Resenha: Sobre Histórias de Fadas - J. R. R. Tolkien

Bom, acho que sobre esse livro não saiu bem uma resenha, embora eu tenha enquadrado nesse marcador. Saiu mais uma mistura de resenha com citações. O texto dessa obra é complexo, como deve dar para perceber nos trechos abaixo. Além disso, há menção a várias histórias, não apenas nominalmente, mas ao enredo e às personagens delas, e, particularmente, conhecia poucas.

De qualquer maneira, saindo um pouco das narrações fantásticas de "O Hobbit", "O Senhor dos Anéis" e suas outras obras semelhantes, Tolkien faz um ensaio falando um pouco de sua concepção do que são "Histórias de Fadas".

"O Belo Reino [Reino Fantástico] é uma terra perigosa, e nela existem armadilhas para os incautos e calabouços para os demasiado audazes. E posso ser considerado demasiado audaz, porque, apesar de ter sido um amante de histórias de fadas desde que aprendi a ler e de pensar sobre elas de tempos em tempos, nunca as estudei profissionalmente. Tenho sido pouco mais do que um explorador errante (ou transgressor) nessa terra, cheio de admiração, mas não de informações."

O autor de certa forma se propõe a responder três perguntas:
-O que são histórias de fadas
-Qual a sua origem?
Quais são as origens das “histórias de fadas”? Isso, é claro, deve significar a origem ou as origens dos elementos fantásticos. Perguntar qual é a origem das histórias (não importa como estejam classificadas) é perguntar qual é a origem da linguagem e da mente.

- Quais são, se é que existem, os valores e as funções das histórias de fadas hoje?

A princípio, fala um pouco do que não são histórias de fadas:
-Histórias de viajantes - como as Viagens de Gulliver
"Temo que tenha sido incluída simplesmente porque os liliputianos são pequenos, diminutos até - a única razão pela qual são notáveis. Mas a pequenez, no Belo Reino como em nosso mundo, é apenas um acidente. Os pigmeus não estão mais próximos das fadas do que os patagônios. [...] Excluo-a porque o veículo da sátira, por mais que seja uma invenção brilhante, pertence à classe das histórias de viajantes. Tais narrativas relatam muitos prodígios, mas são prodígios para ver neste mundo mortal, em alguma região do nosso próprio tempo e espaço; somente a distância as oculta."

 
 -Histórias que usam sonhos para explicar suas partes fantásticas
"Às vezes um sonho real pode de fato ser uma história de fadas de tranqüilidade e destreza quase élficas - enquanto está sendo sonhado. Mas, se um escritor desperto lhe disser que seu conto é apenas uma coisa imaginada durante o sono, ele defraudará deliberadamente o desejo primordial no coração do Belo Reino: a compreensão do feito prodigioso imaginado, não importa a mente que o conceba."
 
-Fábulas de animais
"A fábula de animais, é claro, tem ligação com as histórias de fadas. Animais, pássaros e outras criaturas muitas vezes falam como homens nas verdadeiras histórias de fadas. Em parte (muitas vezes pequena), esse prodígio decorre de um dos “desejos” primordiais que estão próximos ao coração do Belo Reino: o desejo dos homens de se comunicar com outros seres vivos. Mas a fala dos animais, no tipo de fábula que se desdobrou em um ramo separado, tem pouca relação com esse desejo, e freqüentemente se esquece dele por completo. [...] Mas nas histórias que não envolvem nenhum ser humano - ou nas narrativas em que os heróis e heroínas são animais e os homens e mulheres, quando aparecem, são simples coadjuvantes - e principalmente naquelas em que a forma animal é apenas uma máscara sobre um rosto humano, um artifício do satirista ou do pregador, nessas histórias temos fábulas de animais e não histórias de fadas"

Após esse ensaio, há um conto chamado "Folha por Niggle", que achei interessante, mas tenho a sensação de ter entendido muito pouco dele. Algo que possivelmente apenas vai mudar com tempo e releituras .

O conto tem como personagem principal Niggle, um pintor comum de bom coração que vive quase isolado. Constantemente reclama de todas as coisas que tem para fazer e que interrompem sua pintura. Um dos seus quadros cresce a ponto de ele precisar de uma escada para continuar, uma paisagem interminável. Ele acaba tendo de viajar e a partir daí a história fica mais difícil de acompanhar. Ele passa por alguns lugares até chegar... Bom, só lendo para saber.

Epílogo:
Provavelmente todo escritor que faz um mundo secundário, uma fantasia, todo subcriador, deseja em certa medida ser um criador de verdade, ou espera estar se baseando na realidade: espera que a qualidade peculiar desse mundo secundário (senão todos os detalhes) seja derivada da Realidade, ou flua para ela. Se conseguir de fato uma qualidade que possa ser descrita honestamente pela definição de dicionário - “consistência interna da realidade” -, é difícil conceber como isso pode acontecer se a obra não tiver algumas características da realidade. A qualidade peculiar da “alegria” na Fantasia bem-sucedida pode portanto ser explicada como um repentino vislumbre da realidade ou verdade subjacente. Não é apenas um “consolo” para o pesar do mundo, mas uma satisfação, e uma resposta à pergunta: “É verdade?” A resposta a essa pergunta que dei inicialmente foi (muito corretamente): “Se você construiu bem seu pequeno mundo, sim, é verdade nesse mundo”. Isso basta ao artista (ou à parte artística do artista).

quarta-feira, dezembro 21, 2011

Sobre Histórias de Fadas - Citação [5]

[Era uma vez] Esse começo não é pobre, e sim significativo. Ele produz de um golpe o sentido de um grande mundo inexplorado do tempo.

Sobre Histórias de Fadas - J. R. R. Tolkien

domingo, dezembro 18, 2011

Sobre Histórias de Fadas - Citação [4]

O Belo Reino não pode ser capturado numa rede de palavras, porque uma de suas qualidades é ser indescritível, porém não imperceptível. Ele tem muitos ingredientes, mas uma análise não necessariamente revelará o segredo do todo.

Sobre Histórias de Fadas - J. R. R. Tolkien

sábado, dezembro 17, 2011

Folha por Niggle - Citação

Tinha alguns quadros já começados. A maioria era grande e ambiciosa demais para sua habilidade. Era o tipo de pintor que sabe pintar folhas melhor do que árvores. Costumava gastar muito tempo numa única folha, tentando capturar sua forma, seu lustro e o brilho refletido das gotas de orvalho em suas beiradas. Mas queria pintar uma árvore inteira, com todas as folhas no mesmo estilo, e todas elas diferentes.

Folha por Niggle - Sobre Histórias de Fadas
J. R. R. Tolkien

quarta-feira, dezembro 14, 2011

Sobre Histórias de Fadas - Citação [3]

Por muito que sejam boas por si só, as ilustrações pouco ajudam as histórias de fadas. A distinção radical entre toda arte (incluindo o teatro) que oferece uma apresentação visível e a verdadeira literatura é que aquela impõe uma forma visível. A literatura age de mente para mente, e portanto é mais procriadora. E ao mesmo tempo mais universal e mais pungentemente particular. Se fala de pão ou vinho ou pedra ou árvore, apela ao todo dessas coisas, às suas idéias. No entanto cada ouvinte lhes dará uma corporificação pessoal peculiar em sua imaginação. Se a história diz “ele comeu pão”, o produtor dramático ou o pintor podem apenas mostrar “um pedaço de pão” de acordo com seu gosto ou arbítrio, mas o ouvinte da narrativa pensará no pão em geral e o conceberá em alguma forma própria sua. Se uma história diz “ele subiu por uma colina e viu um rio no vale lá embaixo”, o ilustrador pode capturar, ou quase capturar, sua própria visão de uma cena como essa, mas cada ouvinte das palavras terá sua própria imagem, e ela será feita de todas as colinas, rios e vales que ele já viu, mas especialmente d'A Colina, d'0 Rio, d'O Vale que foram para ele a primeira corporificação da palavra.
Sobre Histórias de Fadas - J. R. R. Tolkien

Imagem retirada de cantinhoencantado.blogs.sapo.pt

segunda-feira, setembro 12, 2011

Citação - Sobre Histórias de Fadas [2]

O Belo Reino [Reino Fantástico] é uma terra perigosa, e nela existem armadilhas para os incautos e calabouços para os demasiado audazes. E posso ser considerado demasiado audaz, porque, apesar de ter sido um amante de histórias de fadas desde que aprendi a ler e de pensar sobre elas de tempos em tempos, nunca as estudei profissionalmente. Tenho sido pouco mais do que um explorador errante (ou transgressor) nessa terra, cheio de admiração, mas não de informações.

Sobre Histórias de Fadas - J.R.R.Tolkien

sexta-feira, setembro 09, 2011

Citação - Sobre Histórias de Fadas

O conto [Folha por Niggle] só foi publicado em 1947 (Dublin Review). Não foi alterado desde que chegou à forma manuscrita, muito depressa, em um dia em que acordei já o tendo em mente. Uma de suas fontes foi um pé de álamo com grandes galhos que eu conseguia enxergar mesmo deitado na cama. Foi subitamente podado e mutilado pelo proprietário, não sei por quê. Agora foi derrubado, uma punição menos bárbara por quaisquer crimes de que possa ter sido acusado, como ser grande e estar vivo. Não acho que tivesse algum amigo, ou alguém que lamentasse sua ausência, exceto por mim e um par de corujas.

Sobre Histórias de Fadas - J.R.R.Tolkien